24 julho 2007

Novela Mexicana

você disse que queria ir embora. deixei a porta aberta. joguei a chave fora. não impedi sua saída. você relutou. parecia pedir-me, com um olhar inquieto e fugidio, para que o barrasse. não quis. você ainda me amava, eu sabia, mas não como me era necessário. eu... eu te sentia sempre. tinha-o comigo, mesmo que não em presença física. nossos dias foram únicos, cálidos como o sol de outono. ríamos um do outro tontamente, sem razão nem lei. suas mãos encaixavam-se nas minhas como peças incompletas. andavámos pelas ruas invisíveis, invisíveis para a chuva e para os estranhos. as canções que compartilhávamos eram desconhecidas, as guardávamos secretamente, como se fossem só nossas. eram elas que enfeitavam nossas horas de ócio e gozo, na rede, no chão, na água. mas você queria ir embora. e eu deixei. disse que não voltaria atrás. você não se controlou. horas depois apareceu novamente, como se nada tivesse acontecido. como se não descobrisse minha vergonha e meu luto.

e você voltou.

V

Hoje o seu pesar
Era tanto
Que até fazia sombra
E já era tarde e triste
Como trilhar os mesmos
Velhos caminhos
Esperar a esperança
talvez
Suas ambições ordinárias
Divergem da alma
Privilegiando esse remorso
O corpo se resume
Em roxas olheiras
E ela sem vontade de camuflá-las
São uma extensão
Desse espasmo do nada
Detalhes das desilusões
Que consome
parte do tempo
Que lhe cabe
Ela está exposta
Mesmo no obscurantismo
Que pretende estar
mergulhada
Ainda que é ser humano
Vulnerável à vida.

palavras belas de uma amiga única, que é gêmea em pensamento e em coração.
N.

23 julho 2007

Ontem e hoje

" ...
do amor, amuleto que eu fiz
deixei por aí
descuidei dele, quase larguei
quis deixar cair
tsc tsc
... "
"Paquetá" - Los Hermanos

08 julho 2007

2

voltou a pensar em par. a comida pronta para dois, travesseiros lado a lado, relógios pontualmente gêmeos. as sombras, unidas pelas bocas e pelas mãos, eram ilustrações para as paredes coloridas.
o perfume do outro espalhado pelos cômodos, e a música como moradora de número três.
os dias pareciam ser mais acolhedores, sorridentes. as noites, completas.
minha vida tem par.

07 julho 2007

ela, mulher

"I. Ela não queria anotar a reunião na agenda. Torcia para que não chegasse nenhum convite, nada que a obrigasse a tomar notas, sinalizar alertas e avisos. Ao final do ano, recolhia a agenda vazia, intacta, quase sem marcas, e sorria orgulhosa de não ter feito nada. Sentava à sua mesa na varanda, chiava lentamente a xícara de café, abria o passado e escrevia seus poemas como lembranças que se atrasavam".
Trecho de "Mulheres", do livro "O Amor Esquece de Começar", de Fabrício Carpinejar